VIVENDO NOSSA VERDADEIRA IDENTIDADE
Nossa identidade fundamental não é algo que conquistamos, mas algo que recebemos. Não é baseada no que fazemos, mas em quem somos em Cristo. Não depende de nossa performance, mas da declaração divina. Somos filhos amados antes de sermos servidores úteis.
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Baseado em Lucas 3:21-38
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INTRODUÇÃO
Em 2018, uma história fascinou o mundo quando uma mulher de 72 anos, depois de fazer um teste de DNA por curiosidade, descobriu que não era biologicamente relacionada à família com quem viveu toda sua vida. Na maternidade, 72 anos antes, dois bebês haviam sido trocados por acidente. Embora tenha vivido uma vida inteira com uma identidade, em um instante tudo mudou. Quem ela realmente era? A quem realmente pertencia? Sua história genética era completamente diferente do que sempre acreditou.
Todos nós enfrentamos, em algum momento, questões profundas sobre nossa identidade. Talvez não tão dramáticas quanto descobrir que fomos trocados na maternidade, mas igualmente impactantes. Nos perguntamos: Quem sou eu realmente? O que me define? É minha carreira, minhas realizações, meus relacionamentos, meu status social? Buscamos validação em diplomas pendurados na parede, no número de seguidores nas redes sociais, nas opiniões dos outros sobre nós. Construímos identidades baseadas em expectativas externas, usando máscaras diferentes para diferentes situações. Nos avaliamos pelo que produzimos, não pelo que somos. E nessa busca frenética por identidade e propósito, frequentemente ignoramos a voz que realmente importa – aquela que nos chama pelo nome e declara quem verdadeiramente somos, antes mesmo de fazermos qualquer coisa para provar nosso valor.
Assim como aquela senhora que descobriu sua verdadeira identidade depois de 72 anos, existe uma revelação ainda mais profunda disponível para cada um de nós – uma identidade que não depende de testes de DNA, realizações pessoais ou reconhecimento social, mas que é declarada pelo próprio Deus.
Como filhos amados de Deus, devemos viver a partir de nossa verdadeira identidade em Cristo, capacitados pelo mesmo Espírito que o ungiu.
Nossa identidade fundamental não é algo que conquistamos, mas algo que recebemos. Não é baseada no que fazemos, mas em quem somos em Cristo. Não depende de nossa performance, mas da declaração divina. Somos filhos amados antes de sermos servidores úteis.
Mas se esta identidade é tão fundamental e transformadora, por que continuamos lutando com insegurança, buscando validação nos lugares errados e vivendo abaixo de nosso chamado divino?
O que acontece quando perdemos de vista nossa verdadeira identidade? Olhe ao seu redor e verá os sintomas por toda parte. Vemos pessoas exaustas tentando provar seu valor através de realizações intermináveis. Observamos relacionamentos superficiais onde ninguém realmente mostra quem é, por medo de rejeição. Encontramos cristãos que transformaram sua fé em uma lista interminável de tarefas e obrigações, sem alegria ou poder. Vemos líderes que desmoronam sob pressão porque basearam tudo no que fazem, não em quem são. A crise de identidade está na raiz de nossas ansiedades, nossos medos, nossas compulsões e nossas defesas. Quando não sabemos quem somos, ficamos à mercê de qualquer voz que prometa nos dizer.
E se pudéssemos observar o momento exato em que a identidade perfeita foi estabelecida? E se pudéssemos testemunhar como Deus afirma a identidade antes de exigir ministério? E se existisse um modelo para entender como nossa identidade em Deus deve preceder e fundamentar tudo o que fazemos? É exatamente isso que vemos no batismo de Jesus – um momento revelador que não apenas estabelece quem Ele é, mas também ilumina quem somos nós nEle. Este evento, seguido pela genealogia completa de Jesus, nos oferece o paradigma perfeito para compreender nossa verdadeira identidade e viver a partir dela com poder e propósito.
Voltemos àquele momento decisivo nas margens do rio Jordão, onde Jesus se identifica com a humanidade no batismo e Deus claramente estabelece sua identidade divina, preparando-o para seu ministério.
Vamos ler Lucas 3:21-38, prestando atenção especial a como Lucas estrutura esta passagem em duas partes interconectadas: o batismo com a declaração divina da identidade de Jesus, seguido por sua genealogia completa que remonta a Adão e ao próprio Deus.
"E aconteceu que, como todo o povo se batizava, sendo batizado também Jesus, e orando, o céu se abriu, e o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corpórea, como uma pomba; e ouviu-se uma voz do céu, que dizia: Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo. E o mesmo Jesus começava a ser de quase trinta anos, sendo (como se cuidava) filho de José, e José de Heli, e Heli de Matate... (continuar a genealogia) ...filho de Enos, filho de Sete, filho de Adão, e Adão de Deus."
Vamos explorar três dimensões fundamentais de nossa identidade em Cristo reveladas nesta passagem. Primeiro, veremos como nossa identidade é divinamente declarada, não humanamente conquistada. Segundo, examinaremos como nossa identidade une nosso lado humano e divino, assim como vemos em Jesus. Finalmente, descobriremos como nossa identidade nos conecta à grande narrativa redentora de Deus, dando propósito e significado à nossa existência.
Ao final desta mensagem, minha oração é que cada um de nós saia daqui com uma compreensão renovada de quem realmente somos em Cristo, libertos da necessidade de buscar validação em fontes inadequadas, e equipados para viver a partir de nossa verdadeira identidade com poder e propósito.
O batismo de Jesus nos revela um padrão divino crucial: a identidade precede o ministério, a afirmação vem antes da ação, e o ser fundamenta o fazer.
1. IDENTIDADE DECLARADA: A AFIRMAÇÃO DIVINA (Lucas 3:21-22)
Nossa identidade como filhos amados de Deus é declarada pela voz divina, não conquistada por esforço humano.
Jesus está no início de seu ministério público. Ainda não realizou nenhum milagre, não proferiu nenhum sermão oficial, não chamou nenhum discípulo. Externamente, nada o distingue da multidão que veio ser batizada.
O contexto do batismo de Jesus é profundamente significativo. Lucas nos diz que "todo o povo se batizava" – Jesus não busca um momento exclusivo ou separado. Ele se identifica completamente com a humanidade que veio servir, submetendo-se ao mesmo ritual que outros israelitas. Este ato de humildade impressionante mostra Jesus se alinhando com pecadores, embora Ele mesmo não tivesse pecado. No momento em que Jesus demonstra máxima solidariedade com a humanidade caída, o céu responde com uma revelação extraordinária de sua identidade divina. É como se Deus estivesse dizendo: "Antes que você faça qualquer coisa em seu ministério, quero que saiba exatamente quem você é."
Lucas nos diz que Jesus estava orando quando "o céu se abriu". Esta conexão é significativa – a comunhão com o Pai através da oração precede a manifestação divina. O verbo grego indica uma abertura literal, como se a barreira entre céu e terra fosse temporariamente removida.
O batismo representa um momento crucial de transição na vida de Jesus. Depois de aproximadamente 30 anos de vida relativamente privada, Jesus está prestes a embarcar em um ministério público intenso, enfrentando oposição feroz, desafios imensos e, por fim, a cruz. É precisamente neste momento de transição que o Pai intervém para estabelecer e afirmar a identidade de Jesus. Lucas, mais que qualquer outro evangelista, enfatiza a importância da oração na vida de Jesus, especialmente em momentos decisivos. A oração de Jesus demonstra sua dependência do Pai e estabelece um padrão para os discípulos: os momentos de transição e decisão devem ser fundamentados na comunhão com Deus.
A declaração "Tu és meu Filho amado, em ti me comprazo" merece atenção especial. Observe que Deus não diz "Tu serás meu Filho amado se teu ministério for bem-sucedido" ou "Tu te tornarás meu Filho amado depois de provar teu valor". A identidade de Jesus como Filho amado é declarada antes de qualquer realização pública, antes de qualquer demonstração de poder, antes de qualquer sucesso ministerial. O prazer do Pai em Jesus não depende do que Ele faz, mas de quem Ele é. Esta declaração ecoa Salmo 2:7 e Isaías 42:1, conectando Jesus tanto com a realeza davídica quanto com o Servo Sofredor, estabelecendo sua identidade messiânica de maneira inequívoca.
Imagine um jovem pianista prestes a fazer sua primeira apresentação pública importante. Depois de anos de prática privada, ele agora enfrentará uma grande audiência e críticos exigentes. Minutos antes de subir ao palco, seu mentor – um dos maiores pianistas do mundo – se aproxima.
Este mentor não oferece dicas técnicas de última hora ou lembra o jovem pianista de passagens difíceis da música. Em vez disso, coloca as mãos nos ombros do jovem e diz: "Quero que saiba que, independentemente de como esta apresentação transcorra, você já é um verdadeiro pianista. Sua identidade como músico não depende das notas que você acertar hoje, nem das críticas que receberá. Você é um pianista não porque toca perfeitamente, mas porque a música vive dentro de você. Estou orgulhoso de você antes mesmo que toque a primeira nota." Esta afirmação de identidade, feita antes da performance, libera o pianista para tocar não a partir do medo de falhar, mas da segurança de quem ele realmente é. Ele toca não para se tornar um pianista, mas porque já é um.
A verdade transformadora aqui é que, em Cristo, recebemos a mesma afirmação divina. Paulo nos diz em Efésios 1:5 que Deus "nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo". Em Romanos 8:15, somos lembrados que recebemos "o espírito de adoção, pelo qual clamamos: Aba, Pai!". A mesma voz que declarou Jesus como Filho amado agora nos declara como filhos e filhas amados. Esta identidade não é algo que conquistamos através de desempenho espiritual, serviço na igreja, ou conhecimento bíblico. É um status que recebemos gratuitamente em Cristo. Nossa tendência é inverter a ordem divina, tentando fazer para nos tornar, servir para sermos aceitos, trabalhar para sermos amados. Mas o evangelho estabelece nossa identidade primeiro, e todas as nossas ações fluem dessa identidade segura, não em direção a ela.
A identidade de Jesus não foi apenas declarada do céu, mas também demonstrada em sua natureza dual, revelada tanto no batismo quanto na genealogia que se segue. Da mesma forma, nossa identidade em Cristo abrange tanto nossa humanidade quanto nossa filiação divina.
2. IDENTIDADE INTEGRADA: HUMANA E DIVINA (Lucas 3:22-23)
Nossa identidade em Cristo integra perfeitamente nossa humanidade e nossa filiação divina, sem comprometer nenhuma das duas.
Um dos maiores desafios da vida cristã é integrar nossa identidade espiritual com nossa existência cotidiana. Frequentemente, vivemos vidas compartimentalizadas, com nossa "parte espiritual" separada do resto de nossa humanidade.
O texto de Lucas apresenta um contraste fascinante que captura a tensão entre o humano e o divino em Jesus. Por um lado, vemos a declaração celestial: "Tu és meu Filho amado". Por outro, Lucas imediatamente acrescenta: "E o mesmo Jesus começava a ser de quase trinta anos, sendo (como se cuidava) filho de José". Esta justaposição entre a filiação divina declarada do céu e a filiação humana percebida na terra não é acidental. Lucas deliberadamente posiciona estas duas realidades lado a lado, criando uma tensão produtiva. Jesus é simultaneamente o Filho de Deus, confirmado pela voz celestial, e filho de José, conforme percebido pela comunidade. O parêntese "(como se cuidava)" revela a consciência de Lucas sobre a diferença entre percepção humana e realidade divina.
A descida do Espírito Santo "em forma corpórea, como uma pomba" enfatiza a união do espiritual com o físico. O divino encontra expressão visível, tangível, no mundo material.
A união do divino e humano em Cristo não é apenas um conceito teológico abstrato, mas uma realidade concreta demonstrada no batismo. O Espírito Santo – imaterial e divino por natureza – assume "forma corpórea". Esta materialização do espiritual é profundamente significativa, especialmente no contexto mais amplo da teologia lucana, que frequentemente enfatiza a realidade física da espiritualidade. Lucas, como médico, parece particularmente interessado na encarnação do divino no humano, na expressão do espiritual através do físico. Há uma recusa em separar o mundo material do espiritual, como se fossem reinos completamente distintos. Em vez disso, um pode expressar e manifestar o outro.
A afirmação da idade de Jesus – "quase trinta anos" – não é um detalhe secundário, mas um marcador importante de sua plena humanidade. Esta é a idade em que os sacerdotes começavam seu ministério (Números 4:3) e quando Davi se tornou rei (2 Samuel 5:4). Jesus está plenamente situado no tempo histórico e nas tradições culturais de seu povo. Sua divindade não diminui sua humanidade. Ele não é menos humano por ser divino, nem menos divino por ser humano. Esta integração perfeita das duas naturezas em uma pessoa é o mistério central da encarnação e o modelo para nossa própria identidade integrada em Cristo.
Pense em uma ampulheta, com areia fluindo constantemente entre duas câmaras conectadas. A ampulheta só funciona corretamente quando ambas as câmaras estão intactas e conectadas, permitindo que a areia flua livremente entre elas. Se você tentar separar as duas câmaras, a ampulheta perde sua função e propósito.
Nossa identidade em Cristo é como essa ampulheta – com nossa humanidade e espiritualidade formando duas dimensões inseparáveis e interconectadas de quem somos. Muitos cristãos, entretanto, tentam viver como ampulhetas quebradas. Alguns tentam ser "apenas espirituais", negando sua humanidade, emoções, limitações físicas e necessidades corporais. Outros vivem quase exclusivamente no domínio humano, reconhecendo vagamente o espiritual apenas em momentos religiosos designados. Ambas as abordagens resultam em identidades fragmentadas. Jesus, no entanto, demonstra uma identidade perfeitamente integrada – totalmente humano e totalmente divino, simultaneamente filho de José (aos olhos humanos) e Filho de Deus (aos olhos divinos). A areia flui livremente entre ambas as câmaras de sua identidade, sem contradição ou conflito.
O que significa para nós viver com identidades integradas como seguidores de Cristo? Significa rejeitar a falsa dicotomia entre o "espiritual" e o "secular" em nossas vidas. Significa reconhecer que nossa humanidade – nossos corpos, emoções, relacionamentos, trabalho, lazer – pode e deve expressar nossa identidade espiritual como filhos de Deus. Significa compreender que Deus não nos chamou para transcender nossa humanidade, mas para vivê-la plenamente, redimida e transformada pelo Espírito. Quando Paulo diz em Gálatas 2:20, "já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim", ele não está negando sua humanidade, mas descrevendo uma nova identidade integrada onde o divino se expressa através do humano.
Nossa identidade em Cristo não apenas integra o humano e o divino, mas também nos conecta a uma história maior, assim como a genealogia de Jesus o conecta à história redentora de Deus.
3. IDENTIDADE CONTEXTUALIZADA: INSERIDA NA HISTÓRIA (Lucas 3:23-38)
Nossa identidade em Cristo nos insere na grande narrativa redentora de Deus, dando propósito e significado à nossa existência.
Um dos desafios fundamentais da vida moderna é a sensação de desconexão histórica – vivemos no momento presente, desconectados do passado e inseguros sobre o futuro.
A genealogia que Lucas apresenta após o batismo de Jesus parece, à primeira vista, uma simples lista de nomes. Muitos leitores modernos podem até pulá-la, considerando-a irrelevante ou tediosa. No entanto, esta genealogia não é um detalhe secundário, mas um componente crucial na caracterização de Jesus. Por que Lucas coloca esta extensa lista de antepassados imediatamente após o batismo e a declaração divina da identidade de Jesus? Porque ele entende que a identidade nunca existe no vácuo – está sempre contextualizada em uma história maior. A identidade de Jesus como Filho de Deus, declarada no batismo, não o separa da história humana, mas o situa estrategicamente dentro dela, como seu ponto culminante.
A genealogia de Lucas tem uma característica distintiva comparada à de Mateus – ela remonta não apenas a Abraão, mas a Adão e, finalmente, a Deus. Esta estrutura não é acidental.
Diferente da genealogia de Mateus, que vai de Abraão a Jesus (ressaltando sua identidade judaica), Lucas traça a linhagem na direção oposta – de Jesus até Adão e Deus. Esta estrutura reversa é significativa por várias razões. Primeiro, ela coloca Jesus como o ponto focal da história, não apenas como seu produto. A história humana não simplesmente produz Jesus; Jesus dá sentido à história humana. Segundo, ao traçar a linhagem até Adão, Lucas enfatiza a universalidade da missão de Jesus, que não veio apenas para os judeus, mas para toda a humanidade. Terceiro, ao concluir com "Adão, filho de Deus", Lucas cria um inclusio teológico com a declaração do batismo – Jesus, o "Filho amado de Deus", está conectado a Adão, o primeiro "filho de Deus", sugerindo que Jesus é o novo Adão que restaura a humanidade à sua identidade e propósito originais.
A genealogia inclui tanto figuras proeminentes (Davi, Abraão) quanto nomes obscuros que nunca aparecem em outro lugar nas Escrituras. Inclui pessoas de integridade exemplar e outras com histórias moralmente complicadas. Esta diversidade sugere que Deus trabalha através de todos os tipos de pessoas ao longo da história – os notáveis e os esquecidos, os exemplares e os falhos. Ao incluir figuras gentílicas e mulheres (implicitamente, através de seus maridos), Lucas também sugere a inclusividade do plano redentor de Deus, que transcende barreiras de etnia e gênero.
Pense em um grande tapete sendo tecido ao longo de gerações. Cada fio individual parece insignificante isoladamente, mas quando visto no contexto do padrão mais amplo, revela-se parte essencial de um design magnífico.
A genealogia de Jesus é como esse tapete – cada nome representa um fio único na grande tapeçaria da redenção. Alguns fios são vibrantes e proeminentes, como Davi e Abraão. Outros são mais discretos, quase invisíveis individualmente, como Eli ou Matate. No entanto, todos são necessários para completar o padrão. O aspecto mais impressionante deste tapete é que ele não termina com Jesus – continua sendo tecido, incorporando novos fios à medida que pessoas como nós são adotadas na família de Deus através de Cristo. Nossa identidade em Cristo significa que somos fios neste mesmo tapete, conectados à história redentora que começou na criação e culminou em Jesus. Não somos indivíduos isolados, vivendo histórias separadas e desconectadas. Somos parte de uma narrativa grandiosa que dá significado e propósito às nossas vidas aparentemente comuns.
Compreender nossa identidade como parte da história redentora de Deus transforma radicalmente como vivemos. Primeiro, nos liberta do individualismo isolado que caracteriza nossa cultura. Não somos átomos autônomos, criando nosso próprio significado – somos membros de uma comunidade que se estende pelo tempo e espaço, conectados aos santos que vieram antes de nós e aos que virão depois. Segundo, nos dá um senso de propósito que transcende nossas circunstâncias imediatas. Mesmo quando não conseguimos ver o impacto de nossas vidas, podemos confiar que somos parte de um padrão maior que Deus está tecendo. Terceiro, nos ensina humildade – não somos o centro da história, mas participantes em algo muito maior que nós mesmos. Finalmente, nos dá esperança – a mesma fidelidade de Deus que sustentou sua história redentora através de gerações continua ativa em nossas vidas hoje.
Vimos como a passagem do batismo e genealogia de Jesus nos revela três dimensões cruciais de nossa identidade em Cristo – declarada divinamente, integrada perfeitamente e contextualizada historicamente. Agora, como vivemos a partir desta identidade transformadora?
CONCLUSÃO
Nossa jornada hoje nos levou às margens do rio Jordão, onde testemunhamos um momento decisivo na revelação da identidade de Jesus – e, por extensão, da nossa própria. Vimos como Deus afirmou Jesus como seu Filho amado antes de qualquer realização ministerial, estabelecendo o padrão divino: a identidade precede e fundamenta a missão. Exploramos como Jesus integrou perfeitamente sua humanidade e divindade, oferecendo-nos um modelo para viver com identidades não fragmentadas, onde nossa espiritualidade se expressa através de nossa humanidade, não em oposição a ela. Finalmente, contemplamos a genealogia de Jesus, que o conecta – e a nós, nEle – à grande narrativa redentora de Deus, dando propósito e significado às nossas vidas. A mensagem central permanece clara: Como filhos amados de Deus, devemos viver a partir de nossa verdadeira identidade em Cristo, capacitados pelo mesmo Espírito que o ungiu.
O desafio que nos confronta hoje é radicalmente simples mas profundamente transformador: viver a partir de nossa identidade, não em direção a ela. Isso significa abandonar a mentalidade de que precisamos fazer mais, tentar mais, conseguir mais para sermos aceitos por Deus ou termos valor. Cristo já estabeleceu nossa identidade como filhos amados de Deus. Nossa tarefa não é conquistá-la, mas abraçá-la e viver dela. Como isso parece na prática? Começa reconhecendo os lugares em sua vida onde você tem buscado validação nas fontes erradas – sucesso profissional, opinião dos outros, conquistas, posses, aparências. Continue identificando como estas falsas fontes de identidade têm moldado suas decisões, relacionamentos e prioridades. Finalmente, comece a praticar decisões baseadas em sua verdadeira identidade em Cristo, não em sua necessidade de provar seu valor.
Proponho três passos concretos para começar a viver a partir de sua verdadeira identidade esta semana.
Primeiro, dedique quinze minutos diários à oração contemplativa, meditando na declaração "Tu és meu filho/filha amado/a, em ti me comprazo". Permita que estas palavras penetrem além de seu intelecto, alcançando seu coração.
Segundo, identifique três decisões que você normalmente tomaria baseado em aparências, medo de rejeição ou desejo de aprovação, e reconsidere-as à luz de sua identidade segura em Cristo. Como você escolheria diferentemente se soubesse, realmente soubesse, que já é amado e aceito?
Terceiro, encontre formas de conectar sua história pessoal à grande narrativa de Deus. Isso pode significar aprender mais sobre a história da igreja, compartilhar sua jornada de fé com outros, ou identificar como Deus tem trabalhado através de gerações em sua própria família.
Quando começamos a viver a partir de nossa verdadeira identidade, transformações significativas ocorrem. Notamos primeiro uma nova liberdade – liberdade do medo da rejeição, da compulsão por aprovação, da necessidade de controle. Esta liberdade manifesta-se em relacionamentos mais autênticos, onde podemos ser verdadeiros sem medo, e em decisões mais alinhadas com nossos valores reais, não com expectativas externas. Experimentamos também uma integração maior entre nossa fé e vida cotidiana, à medida que reconhecemos que toda dimensão de nossa existência – trabalho, lazer, relacionamentos, criatividade – pode expressar nossa identidade em Cristo. Desenvolvemos ainda um senso mais profundo de propósito, compreendendo que mesmo nossas circunstâncias aparentemente insignificantes são parte da grande narrativa redentora de Deus.
O objetivo final não é apenas melhorar aspectos de nossas vidas, mas experimentar a transformação profunda que Paulo descreve em 2 Coríntios 5:17: "Se alguém está em Cristo, é nova criação: as coisas antigas já passaram; eis que tudo se fez novo!" Esta novidade inclui uma compreensão radicalmente diferente de quem somos – não definidos por nosso passado, nossas falhas, nossas conquistas ou o julgamento dos outros, mas pela declaração divina de nossa identidade como filhos amados. Quando esta verdade penetra não apenas nosso pensamento, mas nossas emoções, decisões e relacionamentos, experimentamos a liberdade e plenitude que Cristo veio trazer.
Quando o famoso evangelista D.L. Moody estava no auge de seu ministério, conduzindo grandes cruzadas evangelísticas que transformavam cidades inteiras, um repórter lhe perguntou qual tinha sido a maior descoberta de sua vida cristã. Sem hesitar, Moody respondeu: "A maior descoberta que já fiz é que não sou o filho de Deus por causa do que faço. Sou filho de Deus por causa do que Jesus Cristo fez. E nada que eu faça ou deixe de fazer pode mudar esse fato." Este homem, cujas realizações ministeriais eram extraordinárias, encontrou sua identidade mais profunda não em seu trabalho para Deus, mas em seu relacionamento com Ele. Mesmo em meio a um ministério incrivelmente bem-sucedido, ele entendeu que sua identidade não era baseada em seu desempenho, mas na obra completa de Cristo.
A verdade que transforma vidas é esta: No momento em que você colocou sua fé em Cristo, Deus abriu os céus sobre sua vida e declarou: "Tu és meu filho amado, minha filha amada, em ti me comprazo". Não por causa do que você fez ou fará, mas por causa do que Jesus fez. Esta declaração não foi feita em um sussurro, mas com a mesma autoridade que falou na criação do mundo, com a mesma certeza que afirmou Jesus no Jordão. Sua identidade não está em jogo, esperando para ser estabelecida por seu próximo sucesso ou ameaçada por seu próximo fracasso. Está segura em Cristo, estabelecida pela palavra imutável de Deus. Você não precisa lutar para se tornar filho de Deus – você já é. E dessa identidade segura flui tudo o mais: seu propósito, seu ministério, sua transformação.
Imagine como seria viver cada dia desta maneira. Acordar não com ansiedade sobre o que você precisa realizar ou medo de como será julgado, mas com a confiança serena de que, independentemente do que aconteça, você já é amado incondicionalmente por Deus. Imagine relacionamentos livres da necessidade desesperada de aprovação, decisões não mais dominadas pelo medo de falhar, um serviço que flui da gratidão em vez de obrigação. Essa vida não é apenas uma possibilidade teológica distante – é a realidade que Cristo morreu para lhe dar, é sua herança como filho ou filha de Deus, e está disponível para você hoje mesmo. Não no futuro, quando você finalmente "conseguir organizar tudo".
Neste momento, quero convidá-lo a tomar uma decisão. Não uma decisão de tentar mais, esforçar-se mais ou comprometer-se com mais atividades religiosas. Mas uma decisão de aceitar e viver a partir da sua verdadeira identidade em Cristo. Uma decisão de parar de lutar para se tornar quem você já é em Cristo. Uma decisão de permitir que o mesmo Espírito que desceu sobre Jesus no Jordão o capacite a viver como filho ou filha amada de Deus. Talvez você nunca tenha realmente acreditado que Deus o ama dessa maneira. Talvez você tenha vivido toda sua vida cristã tentando ganhar uma aprovação que já lhe foi livremente dada. Hoje pode ser o dia em que você finalmente ouve os céus se abrindo sobre sua vida e a voz do Pai declarando: "Tu és meu filho amado, minha filha amada, em ti me comprazo."
Vamos orar: Pai celestial, agradecemos porque, através de Jesus Cristo, não somos mais estranhos ou visitantes, mas membros de tua família, filhos e filhas amados. Pedimos que o teu Espírito Santo grave esta verdade profundamente em nossos corações. Ajuda-nos a viver não mais buscando ganhar uma identidade, mas expressando a identidade que já nos deste em Cristo. Que possamos caminhar com a confiança e segurança de sabermos quem realmente somos – não por causa do que fazemos, mas por causa do que Cristo fez. E que nossa vida seja um testemunho da transformação que ocorre quando vivemos a partir de nossa verdadeira identidade como teus filhos amados. Em nome de Jesus, que nos tornou parte da família de Deus, amém.